A definição contabilística de ‘lucro’, de forma simplista, é o resultado positivo da diferença entre os rendimentos provenientes das actividades empresariais e os seus gastos.
Contundo, uma abordagem meramente contabilística não é suficiente para se perceber realmente o que é o lucro, e o que representa.
Vamos transpor este conceito para o plano das famílias. O que se pode ler como o lucro de uma família são as suas poupanças. A quantidade de dinheiro que esta foi capaz de acumular dados os níveis dos seus rendimentos e dos seus gastos.
Para que servem estas poupanças das famílias? Em primeiro lugar, devem servir como uma almofada financeira, um fundo de emergência para qualquer uma eventualidade inesperada.
Depois, devem servir como um fundo de investimento numa casa, num carro, em educação, em viagens, etc. Se o objecto deste artigo fosse a gestão das ‘finanças pessoais’, alertaria o leitor para o facto de não dever considerar o seu fundo de emergência para o financiamento de consumos discricionários (não essenciais).
Quão maior for o nível de poupança das famílias, mais saudáveis se encontram do ponto de vista financeiro, e maiores são as probabilidades dos seus investimentos alavancarem de forma bem sucedida as suas tendências de melhoria de qualidade de vida, nomeadamente das gerações vindouras.
O mesmo raciocínio deve ser aplicado às empresas.
Quão maiores os seus lucros, maiores as suas almofadas financeiras. Quer isto dizer que maiores são as perspectivas de sobrevivência das mesmas. Melhores se tornam também as perspectivas de que os colaboradores afectos a estas não perderão os seus empregos – as principais fontes de rendimento da maioria das famílias.
Quão maiores os lucros de uma empresa, maior é a sua capacidade de pagar salários altos e atractivos. A força de trabalho das empresas é um activo produtivo. Deve ser interpretado como investimento que é, e não apenas como um custo. Os executivos mais competentes sabem-no bem.
Quão maiores os lucros de uma empresa, maior a sua capacidade de investimento. Como sem pessoas não existe economia, isto traduz-se numa maior capacidade de geração de mais empregos – mais rendimentos para mais famílias.
Estes investimentos em infraestruturas, activos produtivos, investigação, posteriormente resultarão em mais e melhores bens e serviços prestados – desde saúde, educação, alimentação, habitação, lazer, etc. Inerentemente a qualidade de vida das famílias melhora devido ao maior acesso a bens e serviços.
Existem duas formas de elevar o nível dos lucros de uma empresa: 1) geração de rendimentos mais elevados, catapultados por um maior número de vendas, e 2) uma gestão mais eficiente dos seus recursos nos processos produtivos. Obviamente que o preferível é fundir estas duas estratégias.
Se a pressão na subida dos lucros é maior por parte do maior número de vendas, tal significa que mais pessoas estão a consumir os bens e/ou serviços prestados pela empresa em questão.
Deste facto podemos extrapolar que mais pessoas têm acesso a este bem ou serviço, e que mais pessoas estão satisfeitas com este bem ou serviço. Com o seu poder de compra, mais pessoas estão a votar na produção deste bem ou serviço. De alguma forma, estas pessoas vêm a sua qualidade vida melhorada através do consumo dos mesmos.
A subida no nível dos lucros desta empresa presta informação aos mercados. Representa um sinal que existe procura por este bem ou serviço. Por outras palavras, que as pessoas querem usufruir do mesmo.
O lucro torna-se assim um incentivo ao investimento na produção deste bem ou serviço. Esta competição entre empresas por captação de clientes propele investidores não só a produzir mais deste bem ou serviço, como a inová-lo e melhorá-lo.
Evidentemente que ganham as empresas, mas também os consumidores. Não só passa a existir mais oferta deste bem ou serviço, criando assim uma pressão de baixa no preço do mesmo, como também esta inflação da oferta tende a vir acompanhada de uma melhor qualidade do produto vendido e do serviço prestado.
Se a pressão na subida dos lucros é maior por parte do lado da eficiência na gestão dos recursos, tal quer dizer que ou a empresa produz a mesma quantidade de bens e serviços consumindo menos recursos, ou é capaz de produzir uma maior quantidade destes bens e serviços consumindo os mesmos recursos.
Se tal é observável, quer dizer que o nível de desperdício é menor. Este facto é extraordinariamente positivo dado que os recursos naturais que dispomos são invariavelmente finitos.
Ao sermos cada vez mais eficientes na gestão dos recursos, não só reduzimos o impacto humano no ecossistema que é o nosso planeta, bem como prolongamos a esperança de existência não só da nossa espécie, mas também da dos nossos conterrâneos animais e plantas.
Resumidamente, maiores lucros representam cada vez mais famílias com melhor qualidade de vida, e sistemas produtivos cada vez mais ecológicos.

Fig. 1 – Emissão de CO₂ per Capita (países mais ricos)
Como Podemos observar na Fig. 1, embora possa parecer algo ‘gatafunhada’, temos um comportamento condizente com a Curva de Kuznets.
A Curva de Kuznets é uma teoria avançada por Simon Kuznets, um economista russo-estadunidense, em que este defendia que num estágio primário de desenvolvimento económico a pegada ambiental de um país cresce por força de um crescimento no consumo energético e na utilização de recursos.
À medida em que se chega a um determinado nível de riqueza, esta curva começa a apresentar uma tendência decrescente. Isto porque esta riqueza acumulada permite uma capacidade de investimento em tecnologia que torna os tecidos produtivos cada vez mais eficientes.
Embora apenas capacidade de investimento não seja suficiente, sendo também necessários uma consciencialização do problema e conhecimentos científicos que sejam capazes de produzir soluções, creio ser razoável atribuir à acumulação de riqueza a relação de correlação mais determinante.
Ora, de forma a que seja produzido conhecimento científico que permita a consciencialização do problema, e a partir destes, planificação de soluções, são necessárias riqueza e capacidade de investimento. Afinal, os avanços científicos e progressos tecnológicos são provenientes, de uma forma mais contundente e frequente, dos países mais ricos, não dos mais pobres.
Enquanto que países desenvolvidos como os Estados Unidos, Japão, Alemanha, e Reino Unido demonstram uma diminuição nas emissões de dióxido de carbono nos sectores industrial e energético, países como China, Rússia, Irão, e Arábia Saudita que ainda não se encontram no mesmo nível de desenvolvimento, continuam a apresentar uma curva crescente.
Os países mais pobres apresentam níveis de emissões baixíssimos, como podemos observar na Fig. 2. Isto porque, naturalmente, consumo de energia e recursos, e desenvolvimento económico, mantêm uma relação causal muito forte.

Fig. 2 – Emissão de CO₂ per Capita (países mais pobres)
Mas, uma das críticas aos modelos que tomam em consideração apenas a emissão de gases a nível interno, é que estes dados ignoram a sua real pegada ambiental pelo facto de muitas das importações de bens são provenientes de países cuja pegada ambiental é mais vincada nos processos de produção dos mesmos.
No entanto, como podemos observar na Fig. 3, os mesmos países seguem a mesma tendência nos seus níveis de emissão de dióxido de carbono, mas desta vez ajustada à balança comercial.

Fig. 3 – Emissão de CO₂ tendo por base consumo
O neologismo dos “lucros excessivos” é, portanto, um conceito a todos os níveis, mas sobretudo economicamente falando, irracional. Irracional e perigoso.
As narrativas ideológicas de demonização do lucro representam não somente ignorância, como também um obstáculo à melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Incontornavelmente, estas narrativas apresentam como arma impostos, por via da intervenção estatal e o seu monopólio do legal recurso ao uso da força, para extrair e desviar estes lucros do sector produtivo para os cofres do Estado.
Desta feita, são retirados incentivos ao investimento na produção de bens e serviços que as pessoas querem usufruir, pondo em causa todos os aspectos supramencionados.
O lucro é a recompensa ganha pelas empresas por prestarem bens e serviços de qualidade que as pessoas querem consumir. É o incentivo que seduz indivíduos a tornarem-se empreendedores e a canalizar os seus recursos e a sua individualidade na produção de bens e serviços de qualidade. É o motor do desenvolvimento e da melhoria da qualidade de vida de toda a gente.
Atentar contra o lucro é atentar contra a espécie humana e o planeta a que chamamos casa.

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